Enquanto “Guerreiros do Sol” reacende o interesse nacional pelo cangaço, Sergipe ainda não tirou do papel o memorial prometido para preservar essa história.
A novela “Guerreiros do Sol”, da TV Globo, lidera a audiência desde a estreia, com média de 15 pontos em São Paulo e 31% de participação de mercado na faixa horária, de acordo com a Kantar Ibope Media. Milhões de brasileiros estão redescobrindo, pela televisão, a história inspirada em Lampião e Maria Bonita, o casal que marcou o sertão nordestino e o imaginário nacional por décadas.
Aracaju aguarda, desde 2023, que parte dessa história ganhe um endereço fixo na cidade. O Estado de Sergipe anunciou a criação de um espaço cultural dedicado ao tema como parte do Programa Integrado de Desenvolvimento Cultural e Turístico de Sergipe, o Viva-Se. As obras, porém, ainda não foram iniciadas.
O projeto existe, e o terreno também
Em junho de 2025, o Governo do Estado declarou de utilidade pública um terreno na Coroa do Meio, na zona sul de Aracaju, destinado à construção do Memorial do Cangaço, sob responsabilidade da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi).
A proposta foi bem recebida: criar um espaço permanente de memória, exposições e pesquisa, voltado não apenas ao turista de passagem, mas também ao pesquisador, ao estudante e a quem quer compreender melhor um dos fenômenos mais marcantes da história brasileira. O anúncio coincidiu com um momento de renovado interesse nacional pelo tema, às vésperas da estreia de “Guerreiros do Sol” no Globoplay e do lançamento de “Maria e o Cangaço”, no Disney+.
Um ano depois, o terreno segue vazio. Nenhuma obra foi iniciada. Nenhum cronograma foi apresentado ao público.
O que o memorial poderia reunir
O universo do cangaço é rico em registros, objetos e memórias que ainda aguardam um espaço à altura. Fotografias históricas, indumentárias, armas, documentos e relatos de época compõem um patrimônio disperso entre museus, coleções privadas e acervos familiares.

O memorial anunciado pelo Estado teria condições de reunir e organizar esse material de forma qualificada, oferecendo ao visitante uma experiência que nenhuma produção televisiva, por melhor que seja, consegue substituir. Há interesse de diferentes partes em contribuir para a formação desse acervo, incluindo pessoas próximas à história do casal. As tratativas, no entanto, dependem de que o projeto avance e ganhe forma concreta.


Dúvidas sobre a destinação dos crânios de Lampião e Maria Bonita
Nos últimos meses, outro elemento reacendeu o debate em torno do memorial. A confirmação do paradeiro dos crânios de Lampião e Maria Bonita, reconstituídos com alto grau de fidelidade pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e atualmente custodiados pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo, trouxe à tona uma possibilidade até então pouco discutida publicamente: a criação, dentro do futuro memorial sergipano, de um espaço de caráter simbólico e memorial dedicado ao casal, nos moldes de iniciativas consagradas em outros países para figuras históricas de grande apelo popular.

A hipótese não foi confirmada por nenhuma das partes. Segundo apurações, há diálogo em curso entre representantes da família e o Governo do Estado, mas nenhuma decisão foi formalizada ou tornada pública. O tema, por sua natureza sensível, é tratado com discrição por todos os envolvidos.
Se concretizada, a ideia transformaria o Memorial do Cangaço em um destino sem equivalente no Brasil, com potencial para atrair atenção internacional para Sergipe.
O momento que não volta
O fenômeno do cangaço nunca foi apenas regional. “Guerreiros do Sol” comprova isso com números. O interesse despertado pela novela, somado ao que o Disney+ já movimentou com sua série, representa uma janela cultural rara, do tipo que dificilmente se repete com a mesma intensidade.
Sergipe tem o terreno declarado, o projeto desenhado e, ao seu alcance, a possibilidade de reunir um acervo histórico que ainda aguarda um lar definitivo. A combinação desses elementos coloca o Estado diante de uma oportunidade concreta de se tornar o principal polo de memória e cultura do cangaço no Brasil. Para que isso aconteça, o próximo passo precisa vir do governo de Sergipe.

