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Perseguição política ameaça projeto social em Pinhão: ato solidário de empresário resulta em exoneração de servidor

Iniciativa do empresário Marcell Souza em apoiar jovens pelo esporte evidencia resistência das antigas práticas coronelistas no interior de Sergipe

O controle político regional, antes associado aos símbolos do coronelismo tradicional, persiste de forma modernizada no interior brasileiro, especialmente por meio de chefes locais que mantêm influência sobre a vida comunitária. Em Pinhão (SE), um episódio recente trouxe à tona essas práticas: a exoneração de Renato Souza, servidor público e idealizador do projeto social SCD Três Corações, após o recebimento de materiais esportivos doados por iniciativa do empresário Marcell Souza, ex-prefeito de Campo do Brito.

O SCD Três Corações, que há 23 anos acolhe e oferece oportunidades a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, teve o apoio de Marcell Souza, que articulou junto a parlamentares locais a doação de uniformes e bolas, com a finalidade única de fortalecer o trabalho social. “O esporte transforma vidas, não apenas na saúde física e mental, mas também formando cidadãos através do respeito, disciplina e superação de desafios”, destacou o empresário, cuja iniciativa foi recebida com entusiasmo pela comunidade, mas gerou fortes reações políticas.

A doação, movida pela intenção de promover inclusão e desenvolvimento social, acabou interpretada pela administração municipal como afronta política. Pouco após a entrega, Renato foi exonerado de seu cargo pela prefeitura, episódio que reforçou suspeitas de retaliação. O ex-servidor agora teme não só pelo emprego perdido, mas também pela continuidade do projeto, já que pode ser impedido de utilizar o ginásio público onde as atividades ocorrem.

Apesar do clima de hostilidade, Renato Souza declarou que continuará “lutando para manter viva a ação social, apesar dos obstáculos impostos”. Ele também afirmou que buscará apoio do Ministério Público para garantir o acesso aos espaços públicos e a sobrevivência do projeto, que é apartidário e visa exclusivamente o bem-estar dos jovens.

A situação escancara um dos maiores desafios enfrentados por iniciativas sociais nos pequenos municípios: a instrumentalização da máquina pública como ferramenta de perseguição política. Enquanto a juventude pede atenção e alternativas de futuro, gestos solidários, como o de Marcell Souza, ganham relevância não só pelo impacto positivo, mas também por se contraporem ao atraso representado pelo clientelismo e pelo abuso de poder ainda presentes no cotidiano de tantas cidades do interior.

No final das contas, o maior prejuízo não recai sobre adversários políticos, mas sobre as crianças, adolescentes e famílias que perdem oportunidades de inclusão e esperança. O episódio reforça a necessidade de debate sobre o uso ético da administração pública e o fortalecimento das redes de apoio à juventude — para que, em vez de práticas arcaicas, prevaleça a construção coletiva de um futuro melhor.

A reportagem tentou contato telefônico com a Prefeitura de Pinhão, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

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