Discurso do prefeito Angelo Oswaldo provoca reação dura do governador de MG Mateus Simões; episódio expõe divergências sobre modelo cívico-militar e limites da política em solenidades oficiais
A tradicional cerimônia de 21 de abril em Ouro Preto, que marca a entrega da Medalha da Inconfidência, ganhou contornos políticos neste ano após um embate público entre o prefeito de Ouro Preto (MG) Angelo Oswaldo e o governador de Minas Gerais, Mateus Simões. No centro da controvérsia, visões distintas sobre o modelo educacional e o papel das instituições no ambiente democrático.
O evento reuniu autoridades de diferentes estados, incluindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, agraciado com o Grande Colar da Inconfidência — a mais alta honraria concedida pelo governo mineiro.
Primeiro a discursar, Angelo Oswaldo adotou um tom histórico e reflexivo. Ao evocar referências como Tiradentes, Juscelino Kubitschek e Rui Barbosa, o prefeito defendeu uma proposta que definiu como “escola cívico-militante, não militarista”. A fala ressaltou a educação como instrumento de formação cidadã, baseada em transparência, lucidez e valores democráticos.

Segundo o prefeito, o simbolismo de Ouro Preto — especialmente espaços como o Museu da Inconfidência — reforça a necessidade de um modelo educacional comprometido com a participação social e os princípios republicanos.
A solenidade manteve o padrão dos anos anteriores, com forte controle de acesso na Praça Tiradentes. O público geral teve presença limitada por um esquema de segurança rigoroso, com comércio fechado no entorno e circulação restrita, preservando o caráter institucional do evento.
O discurso ocorreu em meio ao debate sobre a implementação de escolas cívico-militares, política defendida por Mateus Simões e pelo ex-governador Romeu Zema, ambos presentes na cerimônia.
Ao encerrar os pronunciamentos, o governador reagiu de forma contundente. Classificou a fala do prefeito como inadequada ao contexto da solenidade e afirmou que o evento não deveria ser utilizado para críticas às instituições. Em tom elevado, pediu que militares homenageados se levantassem para aplausos e declarou: “Se há quem tenha vergonha do militarismo, essa casa não o tem”, reforçando a defesa das Forças Armadas e das tradições cívico-militares associadas à data.
Simões também apontou “descortesia” por parte dos anfitriões e avaliou que o momento foi indevidamente politizado.

A repercussão foi imediata. Em resposta, Angelo Oswaldo divulgou nota em suas redes sociais, contestando a interpretação do governador. O prefeito classificou a reação como arbitrária e reiterou que seu discurso teve caráter propositivo, voltado à defesa de um modelo educacional alinhado aos princípios democráticos.
Ao todo, 171 personalidades e instituições foram homenageadas pelo governo mineiro na edição deste ano da cerimônia, incluindo Tarcísio de Freitas.
O evento também registrou ausências de nomes previamente anunciados, como Gusttavo Lima, Paula Fernandes, Samuel Rosa, Débora Falabella e Hulk.
A irritação do governador ao responder ao discurso do prefeito evidenciou um contraste de visões sobre a educação cívica e o papel das instituições militares no debate público contemporâneo — um tema que segue tensionando diferentes campos políticos no país.

